quinta-feira, 9 de julho de 2020

The Last of Us 2: Ame ou odeie essa é a crítica mais difícil de se fazer

Esse texto contém spoiler de The last of Us Partes 1 e Parte 2 – Para ler os spoilers selecione os textos marcados.


Vamos iniciar com números! Prometo que esses números serão legais. Na data de hoje: 

  • A Sony afirmou que já vendeu mais de 4 milhões de unidades de The Last of Us Parte 2 (link) - um sucesso! 
  • Ao acessar a lista de troféus na data de hoje, aproximadamente 42% das pessoas conquistaram o troféu “O que eu tive que fazer” relacionado a conclusão da história – cerca de 1,8 milhões de pessoas. Só para termos uma referência, esse é o mesmo percentual do game Red Dead Redemption 2 na PSN (game de 2018). 
  • Quase 2% já platinou o TLoU2 (800 mil pessoas – uma platina relativamente fácil onde o % tende a aumentar).
  • Essa média indica que as pessoas estão dispostas a passar de 25 a 40 horas em um jogo pesado, em diversos aspectos.

Mas porque esse monte de estatísticas? - Quando olhamos o game no site agregador de notas, Metacritic temos um cenário um pouco diferente. No geral, a crítica do jogo tem sido boa -  Metascore oficial tem  94 pontos (a mesma nota de God of War de 2018) - porém ao olharmos as notas dos usuários (ínfimos 5 pontos – de um total de 10 - com um desgosto 4,4 perdurando por semanas) e os comentários, percebemos que TLoU2 é um jogo divisor de águas... e de opiniões.

Mas antes de falar das divisões, vamos voltar à 2013, época em que o primeiro game TLoU saiu e o PS3 estava se aposentando. Este seria o último grande passo técnico que o console iria dar juntamente com games como GTAV, Assassins Creed Black Flag, Bioshock Infinite e o reboot de Tomb Raider (que ano!) Todos esses games foram considerados verdadeiras obras de arte não só pelas suas qualidades técnicas, mas também pela narrativa e profundidade de suas histórias e personagens. 

A partir de então, o mundo foi complicando e criando uma espécie de militância bifurcada... (...) Games, filmes e produções como The Last of Us 2 acabam entrando em uma esfera diferente de análise.

Fora do mundo dos games, especificamente no Brasil, as primeiras manifestações “Não vai ter Copa” e “O Gigante Acordou” estavam pautando um pouco o que iríamos enfrentar nos próximos anos (manifestações iniciadas nas famosas Jornadas de Junho de 2013). Mas mesmo assim, o mundo estava menos dividido e era um mundo menos complexo.
A partir de então, o mundo foi complicando e criando uma espécie de militância bifurcada entre ideias mais abertas e ideias mais tradicionais. Isso ocorreu no mundo inteiro, desembocando nas eleições presidenciais que marcaram a ascensão de uma ala mais conservadora como EUA e Brasil. Games, filmes e produções como The Last of Us 2 acabam entrando em uma esfera diferente de análise.

A nudez nas artes, a liberdade da sexualidade, o orgulho LGBTQI+, o feminismo e o Black Lifes Matter se tornaram uma pauta polarizada apesar dos seus contextos históricos políticos. A religião, a família tradicional e o patriarcado foram preservados numa extremidade e chegamos em um ponto em que a pergunta "O que é arte?" foi muito explorada.

E assim chegamos à TLoU2, game que se pauta dos tabus sociais e tenta explorar facetas humanas diferentes. Se o game de 2013 foi considerado artístico pela sua profundidade e questionamentos da sociedade, o segundo chega de forma corajosa e aborda muitos temas polêmicos. 

Algumas coisas fazem deste game, um game “pesado”, e essas mesmas coisas tornam o jogo complicado para agradar o grande público. Quando o primeiro jogo termina, o jogador é obrigado a engolir a seco a situação imposta pelo final. Não estávamos curados desse final aberto e logo de imediato no segundo game temos que lidar com um evento importante (SPOILER) a morte de Joel, a figura paterna de Ellie é assassinado pela personagem Abby de forma cruel (SPOILER) e quando percebemos que temos que lidar com essa nova situação, Ellie decide se aventurar, movida pelo ódio, no melhor estilo faroeste.

Assim iniciamos o game, mas como da primeira vez, ainda jogamos de forma maniqueísta - sabemos quem são os heróis e os vilões. Mas então o game pretende ir além mesmo que de forma gradativa: Inicialmente temos um gameplay com a misteriosa Abby no início do jogo e depois percebemos que os minions mortos têm nome. Perceba que quando você mata um soldado, outros soldados chamam pelo nome do falecido. É possível ouvir seu choro e engasgo. Então o jogo passa a mostrar uma dualidade sobre temas polêmicos que hoje dividem a sociedade. E aqui podemos colocar tudo: Feminismo, Sexualidade, Transfobia, LGBTQfobia, Fanatismo Religioso, Drogas e até Aborto. Tudo sem saber quem é certo ou errado.

(Muito Spoiler – Selecione o texto para ler)
Para aprofundar o questionamento, na metade do jogo, o game dá uma virada e tenta explorar a personagem Abby – o jogador passa a controla-la. A musculosa soldado então vai se mostrando complexa e longe de uma alma vilanesca pintada pela primeira metade do jogo. O seu grupo, WLF, é tão humano quanto o povoado de Jackson. Seu ímpeto e seu desejo por vingança passam a ser tão nobres quanto aos de Ellie e seu porte físico chamativo é uma alegoria de todas essas características. 

O mais importante: durante a campanha de Abby, o seu inimigo não é Ellie – ela sequer se preocupa com Ellie, mostrando uma conotação e motivação egocêntrica da nossa querida Ellie. Abby tem problemas com outro grupo, os Seraphites e quando achamos que estamos diante de um grupo de vilões, caímos no mesmo erro e o grupo oponente acaba demonstrando sua humanidade na figura dos irmãos Lev e Yara. 

Nesse ponto, o jogo passa a ser inaceitável para um grupo de jogadores. Ellie passa a ser tão vilã quanto Abby, porém Abby tem um ônus maior e uma necessidade de ligar os pontos no roteiro. Gostar ou não de Abby não é o problema: ela é complexa demais e matou Joel, o jogador pode não estar preparado para isso. Odia-la parece ser mais fácil, mas a complexidade aperta o peito novamente de forma muito pior que o final do primeiro TLoU.
(Fim do Spoiler)

A ala conservadora, fã do primeiro jogo e reflexo da polaridade em que vivemos tende a reclamar. É como se eles quisessem que o mundo de 2013 fosse o mesmo em 2020. Não é!

"...(...) É difícil criticar o espelho."

Esse problema extrapolou o mundo dos games quando, pouco antes do lançamento, a mesma ala conservadora reivindicou os vazamentos do roteiro e de detalhes importantes da trama (fonte). O objetivo do grupo era desestimular a venda do jogo. Não deu certo.

Por esse motivo, criticar The Last of Us 2 se torna delicado. Tecnicamente o jogo foi considerado longo demais e o replay ainda não é o forte do jogo. Além do mais, carece de um modo ou experiência online. Também não podemos ignorar os "crunches" da Naught Dog, uma cultura de "sangue, suor e pixels" que colocar desenvolvedores em situações extremas fazendo horas extras de forma quase desumana.

Porém o fator inclusivo de The Last of Us 2 tenta redimir esse problema do mundo real. São tantas opções de acessibilidade (para deficientes visuais, auditivos e até intelectuais) que validam a história contada na tela: estamos falando de diversidade. E o jogo tenta misturar essa ideia em várias camadas quebrando a quarta parede do conceito de integração. 

Mesmo na pacífica cidade de Jackson, Ellie é vista de forma estranha pelo fato de ser lésbica. Essa dualidade acaba mostrando que nem todos somos santos, nem todos somos maus, nem todos somos corretos e coloca em xeque toda a polarização que o mundo enfrenta principalmente diante de uma pandemia – Se isso não é um retrato da nossa sociedade atual, não sei o que é.

Ame ou odeie, TLoU 2 é uma crítica maior sobre nós mesmos e sobre o momento em que vivemos: bifurcados e aceitando pouco o diferente. É difícil criticar o espelho.

Este é um game que consegue tirar seus jogadores do conforto da cadeira e discutir sobre as relações humanas. The Last of Us Parte 2 pode não ser melhor que o primeiro game, mas é o game que merecemos, especialmente em 2020.

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