segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Como Blade Runner trabalha um dos maiores questionamentos da humanidade


Tente parar por um segundo e reflita sobre a pergunta: O que te faz humano?

Essa pergunta talvez seja uma das mais difíceis de se responder.  Variações à essa pergunta podem ser encontradas na história de Sofia, que com apenas 15 anos em "Mundo de Sofia", já se perguntava  quem era ela. 

Memórias que se perdem, como lágrimas na chuva
Quem somos? O que nos faz humanos? Para onde iremos? Qual o meu propósito?  As poucas respostas (parciais) para esses questionamentos estão em lampejos da História, Genética e Sociologia. Entretanto quanto mais respostas temos, mais questionamentos encontramos.

Até que chegamos em Blade Runner, de 1982 de Ridley Scott, onde ele (ou pelo menos o estúdio na primeira versão do longa), com base na obra "Androides Sonham com Ovelhas Elétricas?"de Philip K Dick, trouxe à tona esse questionamento: "O que nos faz humanos?".

A obra original de Scott, ganhou mais 2 outras versões, contudo todas elas sempre colocaram em dúvida a humanidade de seu protagonista, Deckard (Harrison Ford) e sua relação com a replicante Rachael (Sean Young). Propósitos, diálogos e símbolos, em uma estética de filme cyberpunk-noir, tornaram a obra de 82, a "melhor ficção científica de todos os tempos" por alguns especialistas (obviamente há controvérsias). 

Podemos não sobreviver, mas no final, quem sobrevive?
Em 2017, 35 anos depois, a história ressurge em Blade Runner 2047. Assistir ao primeiro filme não é fundamental, mas é importante. Além das referências, história e personagens, o filme se propõe a continuar o longa de Scott, porém agora nas mãos de Denis Villeneuve (A Chegada). Apesar dos receios de todo mundo quanto à continuação, o filme consegue absorver, mostrar e evoluir a mesma estética do primeiro longa. 

Dessa vez, o protagonista é K (Ryan Gosling) e o longa parte de elementos e consequências do plot do primeiro filme. A identidade gráfica e as informações em tela, transformam as 2 horas e 43 minutos do filme em uma investigação onde sempre achamos estar um passo à frente de todos - mas nunca estamos.

O roteiro não é impecável, tendo consequências que só se justificam para a trama seguir em frente. Também há um forte indício da necessidade de transformar o filme em uma trilogia (ou até franquia), deixando expostos alguns ganchos de um levante sugerido que podem ser questionáveis.

Entretanto, durante todo o tempo, o espectador se remeterá aos questionamentos originais propostos por Scott e Dick e de quebra, passará a confrontar questionamentos sociais importantes como direito das máquinas, liberdade e até livre-arbítrio.

Villeneuve é sem dúvida nenhuma, a melhor escolha para a continuação e, se a possível continuação for tão bem dosada quanto essa, não há problema algum.
O que te faz humano? O que isso muda, se você não for um humano?
Mas no final, o que nos faz humanos?
Enquanto o primeiro filme era um verdadeiro teste de voight kampff para descobrir a humanidade de Deckard, o segundo é uma investigação construída de forma inversa, capaz de remontar peças de quebra-cabeças que mexem com a origem do indivíduo. Porém o questionamento ganha um outro patamar: o que importa sabermos se somos humanos? 

Um replicante, se prova como um construto social, porém dependente da qualidade da assimilação e padrão. Se estiver fora do padrão, assim como no primeiro filme, é razão de eliminação. 

E isso, transposto à outras realidades, abre um leque infinito de questionamentos que viram pontos de discussão no meio acadêmico e até no facebook. O que não está no padrão, merece ser "eliminado"? 

A resposta para o que nos faz humanos, é sem dúvida nenhuma, um pontapé para mais dúvidas. E Blade Runner 2049, faz bem isso: nos questionar. 

Nota (1-5): 5
O melhor: Voltamos ao mundo atualizado de Blade Runner
O pior: Forte necessidade de criar ganchos para continuação
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